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sábado, 2 de junho de 2012

VOZ DO BARRO



Essa letra foi escrita durante o processo de ensaio do espetáculo QÜÊBA, A VOZ DOS NOSSOS ANCESTRAIS, do meu parceiro e amigo Régis D'Anton. Quando iniciamos os ensaios ele tinha o espetáculo quase todo composto e eu dividi parceria com ele em três canções. Nessa letra tentei encontrar os elementos que ele queria para cantar Nanã.  Está aí uma música que fala para dentro do tempo e uma poesia que busca a mais simples aproximação desse filho e sua mãe.

VOZ DO BARRO
(Régis D'Anton / Meyson)

mãe
o cântaro guardou de ti
o barro o puro sal
mãe


mãe
o sândalo soprou o beijo teu
no barro a cura, o sal
mãe


e a margem do rio canta ainda
na voz da lida
ladainha


pra lavar, pra lavar,
pra benzer, pra benzer,
vim nascer dessa voz


Régis D'Anton - Voz e Violão
Paulo Black - Contra Baixo
Eder Fersant - Rabeca




Nanã - (vale a pesquisa)

GUIA


Eu estava sentado na praça do Carmo, próximo ao Teatro Vasquez, em Mogi das Cruzes, esperando para me apresentar em espetáculo de teatro em que eu fazia a trilha, memorando minhas marcas depois de ter montado todos os instrumentos, passei a mão pelo terço que carrego no pescoço e nessa mesma hora os sinos do Carmo badalaram, virou música e essa é a letra desse meu Nuviar.

GUIA
(Meyson)

minha guia é de conta de rosa
escudo pra olhar de quebranto
sou devoto do espírito santo,
dos três reis, da bandeira e do manto


no meu canto a prece que tenho
violão meu rosário de pinho
quanto já me sonhei passarinho
pelas curvas do rio do destino


quando os sinos do Carmo anunciam
o ocaso se faz tão bonito
e eu me sento a cantar meus benditos
dentre tantos e outros contritos


mó de verso
nó de vida o amor
sé de sonho
fé sem régua o amor


foi mirando céu eu vi
eras astro, girassol, de beiral bem-te-vi.







GRATIDÃO


Um dia, sem mais nem menos, me peguei a assoviar uma ciranda infantil que me visitava a memória e me emocionei. Uma cantiga que aprendi com minha mãe talvez, talvez não, e pensei cheio de gratidão que lindo acontecimento a vida me proporcionava, estar no caminho dessa história oral e ser portador de um presente valioso que me foi dado e que agora era meu. Sou grato.

GRATIDÃO
(Meyson)

quando acontecer de alembrar da canção que se perdeu
dentro do alguidar da memória que o tempo arrefeceu
será pra sorrir, pra chorar de alegria e coroar
todas as manhãs desse dia ao até quando durar


tenta te esforçar e assovia tamanha gratidão
volta um passo só e observa que lindo o teu sertão
tá no teu quintal, no varal, tá na voz de entardecer
nas mãos de ofertar, de fiar, pontear e entretecer


deixa de correr, pára o passo pra chuva te banhar
louva teu suor, lembra a força que tem teu maracá
olha esse amor, se alimenta é de amor que a gente dá
louva teu lugar, louva e canta pro teu povo dançar


clariô, iô-iô, clariô
ilu aô, meu amor ilu aô
põe teu pé junto ao meu pé pra dançar
zabumba eô, zabumba eá...


SEU MOÇO


Composta com referências de minhas infâncias. Música de figmentos de lembranças. Homenagem à minha ancestralidade próxima e a terra de meus pais. Nada mais e muito de mim.

SEU MOÇO
(Meyson)

seu moço
sou filho do norte
e cheguei nessa terra
trazendo na testa
as memórias de um povo
à esse quase quilombo
tenho o sangue nagô
e dos índios de lá


aprendi a voar
espiando meu pai
que corria descalço


hoje eu voo bem alto


o meu terno é de fé
trago um cravo na boca
e um mocó de rapé


ando muito à pé
pelo gosto de andar
por debaixo do sol
muito arriba do chão
se eu canto o sertão
é que meu coração
reza o agradecer


aprendi a cantar
espiando minha mãe
que dançava na chuva


meu rio fez tantas curvas



o meu terno é de fé
trago um cravo na boca
e um mocó de rapé


ando muito à pé
pelo gosto de andar
por debaixo do sol
muito arriba do chão
se eu canto o sertão
é que meu coração
reza o agradecer


Dina de Irraé e de Tuta
eu sou neto de Bené
o Sucuru sangrou num açude
onde vou lavar meu pé
o Cariri me chama é pelo nome de Sumé
onde o meu amor nasceu




mocó - esconderijo, local secreto onde se guarda algo ou alguém
rapé - tabaco moído para cheirar
Dina - minha avó materna também chamada pelos netos de Bobó
Irraé - Israel, meu avô materno, também chamado de Bobô
Tuta - minha bisavó materna, mãe de Bobó
Bené - Benedito de Oliveira, meu avô paterno
Sucuru - rio da cidade de Sumé-PB
Sumé - cidade do interior da Paraíba que me deu poesia e vida à canção
meu amor - Maristela





quinta-feira, 24 de maio de 2012

CANTIGA


 Fiz para minha mãe, como que tentando explicar meus Nuviares de vida, minha canção, meu teatro e principalmente minha poesia. Como se querendo pedir benção para adejos mais demorados.


CANTIGA
(meyson)

vi um louva-à-deus na folha
verde é o cheiro dos teus dedos
barro o pote onde a água
fresca venha a teus cabelos
ouvi de um bem-te-vi na galha sebe
soube da saudade
calmos ventos sobre as ervas
que ainda aromem tuas tardes


eu vim, eu cheguei na viração
eu vi, aprendi da miração, mãe
cresci, hoje eu sou d'arribação


traz pra mim os teus lençóis
para eu cheirar das tuas preces
as verdades de eu lembrar
e avisa esse povo todo que o teu garoto
veio e trouxe temperos de além-mar



eu vim, eu cheguei na viração
eu vi, aprendi da miração, mãe
cresci, hoje eu sou d'arribação





DIVINO


 Os dons do Divino Espírito Santo são sete: Sabedoria, Entendimento, Conselho, Fortaleza, Ciência, Piedade e Temor a Deus. Um dia pensando sobre a força do Divino manifestado pelo coro popular dos violeiros nas alvoradas em Mogi das Cruzes, me encontrei encantado de afetos pela beleza desse gesto puro de arte e fé. Morava eu no São João em frente a uma bodega que carinhosamente chamava de "providencial", atravessei a rua onde no fim da tarde fazia uma sombra manhosa e ali, na calçada, puxei do violão, e mergulhei em meu Nuviar de canção, vivenciei de memória aquelas lindezas de instante e compus de um tapa, para futuras poucas revisões esse Divino. Nessa música homenageio um mestre violeiro que muito me inspira, pela presença e generosidade: Jorge Correa.


DIVINO
(meyson)

lindas as flores na coroa do Divino
lindas as flores na coroa do Divino


sempre bem vindos os cortejos da manhã


nosso amanhã sempre a luz de vossa guia
que a nossa alegria são os dons de vosso amor
sob esse andor todos filhos de Maria
com violas e poesias vão cantando em louvor

oi ponteia a viola Seu Jorge
o alforje não pode pesar
afugenta a tristeza que é nada
a toada não pode pesar






Mestre Jorge Correa violeiro


Dani Anjos \ Aline Aurora \ Vanessa Silva \ Helô Rossi
participação no Show Nuviares


Especial Festa do Divino Espírito Santo
Programa exibido pela TV Diário de Mogi das Cruzes no dia 02/06/2012
Participação em 1:00:42 da Música Divino
Voz - Mateus Sartori
Cello - Paulo Henrique
Viola - Meyson

Divino por Jabuticaqui no CD - AGÔ
Interpretada por Aline Chiaradia



Divino Espírito Santo



quarta-feira, 23 de maio de 2012

PASSARINHAS

Na Paraíba, em Sumé, minha cidade ancestral. Terra de meus pais e avós, chão que me construiu identidade. Essa canção fala do quintal de Dona Dina, minha vó, carinhosamente chamada de Bobó pelos netos e bisnetos. Nesse quintal se reunia uma mulherada falante e sorridente, entre varal e canteiro cheiroso de erva, fruto e flor, reunião de conversa, comida e vez por outra, cachaça. Essas são as Passarinhas que rodeavam esse menino bobo apaixonado pelo céu descobrindo um amor novo, gigante, por uma estrela que naquele instante entrava em sua vida, Maristela. Obrigado esse povo. Essa música pode ser encontrada nos CDs, AGÔ do Jabuticaqui e BARROCO do projeto Vila de Sant'Anna do meu amigo Mateus Sartori.

PASSARINHAS
(Meyson)


Galhas
do meu cancioneiro
sombreiem o terreiro
é linda a manhã
tem passarinhas por todos os cantos
cantando seus cantos
cunhãs.

Tem fogueira na roda da dança de cacuriá
senhora no fogo da lenha mexendo o fubá
uma outra alimenta a pequena com seio de amor
é bronze o sorriso
frescor

que vem da moringa com gosto de cupuaçu
licor que aromado com mel doce de jataí
que lá da varanda ao balanço de tudo sorri
é Dina eu sei
mainha de mãe

Era eu lá
ei
miudim pra voar
com ôi no varal
já mirando um cordel
meu outro oiá
de namorado do azul
já bem vesgo de oiá
uma estrela no céu despontar






cunhã - mulher adulta, cabocla, termo regional comum nos interiores do Brasil.
cacuriá - dança típica do estado do Maranhão, surgida como parte integrante das festividades do Divino Espírito Santo.
cupuaçu - fruta muito comum na região Norte do Brasil.
jataí - é uma abelha sem ferrão, ou melhor que possuí um ferrão atrofiado, mas um mel delicioso.



sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Ladainha da Luz

     Um dia me vem Memeu Cabral com algumas poesia para que formatasse um livreto, entre os versos havia esse COMUNGAMOS NOSSA FÉ \ NO CORAÇÃO DA RAZÃO \ MATAMOS MAIS DA METADE DOS NOSSOS DEFEITOS FOMOS ELEITOS \ SABEMOS, desse livreto que muita gente leu e comentou e comenta até hoje ficaram boas lembranças. Muito tempo depois Regiane Pomares começa a cantar esses versos para Memeu e ele gosta e fica por aí. Outro dia, eu tocando com Memeu, ele me chega e canta o verso e assim nasce o título antes da música completa, _Meu isso é uma ladainha! Assim nasce a Ladainha da Luz.
     Aquilo ficou na minha cabeça durante semanas, queria participar da composição, mas tinha a poesia do Memeu e aquele jeito aliterado e próprio de rimar, com um rítmo muito pessoal. Até que li um texto sobre o Êxodo - Bíblia e pensei em homenagear esse momento do povo judeu e apresentei a música pronta para apreciação dos dois que aprovaram e hoje a letra da música ficou assim.

LADAINHA DA LUZ
(Regiane Pomares \ Meyson | Memeu Cabral)

Comungamos nossa fé \ no coração da razão
matamos mais da metade \ dos nossos defeitos
fomos eleitos \ sabemos

No sertão nos deu maná \ deu-nos de beber da luz
sagramos mais de um segredo no nosso degredo
fomos eleitos \ oremos

A cada homem deu de si \ a cada ventre um redentor
colhemos mais de um poema \ nas sendas supremas
da sua quimera \ procela

É mel \ o que falta nas almas
prazer no cumprir da promessa
mergulhar de cabeça \ no que justifica a ascensão

Toda sexta é de paixão \ todo sábado de aleluias
para o homem que tem na luta sincera
a solução


.

regiane

memeu