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sábado, 2 de junho de 2012

SEU MOÇO


Composta com referências de minhas infâncias. Música de figmentos de lembranças. Homenagem à minha ancestralidade próxima e a terra de meus pais. Nada mais e muito de mim.

SEU MOÇO
(Meyson)

seu moço
sou filho do norte
e cheguei nessa terra
trazendo na testa
as memórias de um povo
à esse quase quilombo
tenho o sangue nagô
e dos índios de lá


aprendi a voar
espiando meu pai
que corria descalço


hoje eu voo bem alto


o meu terno é de fé
trago um cravo na boca
e um mocó de rapé


ando muito à pé
pelo gosto de andar
por debaixo do sol
muito arriba do chão
se eu canto o sertão
é que meu coração
reza o agradecer


aprendi a cantar
espiando minha mãe
que dançava na chuva


meu rio fez tantas curvas



o meu terno é de fé
trago um cravo na boca
e um mocó de rapé


ando muito à pé
pelo gosto de andar
por debaixo do sol
muito arriba do chão
se eu canto o sertão
é que meu coração
reza o agradecer


Dina de Irraé e de Tuta
eu sou neto de Bené
o Sucuru sangrou num açude
onde vou lavar meu pé
o Cariri me chama é pelo nome de Sumé
onde o meu amor nasceu




mocó - esconderijo, local secreto onde se guarda algo ou alguém
rapé - tabaco moído para cheirar
Dina - minha avó materna também chamada pelos netos de Bobó
Irraé - Israel, meu avô materno, também chamado de Bobô
Tuta - minha bisavó materna, mãe de Bobó
Bené - Benedito de Oliveira, meu avô paterno
Sucuru - rio da cidade de Sumé-PB
Sumé - cidade do interior da Paraíba que me deu poesia e vida à canção
meu amor - Maristela





terça-feira, 29 de maio de 2012

CORDEL PARA CONSELHEIRO


Sempre me acompanha as referências de Sumé-PB, onde vivenciei profundamente as cantorias populares, sob a voz de Valdir Teles, Louro Branco, Sebastião Silva, Geraldo Amâncio, Raimundo Caetano, Oliveira de Panelas e tantos outros que me alimentaram de saberes universais. Um cantador em específico me comove pela presença em minha vida, João Furiba, que visitava minha casa a tomar café e conversar a vida, organizador de congressos de viola e violeiro reconhecido nesse meio de riqueza vasta, história viva de cultura nordestina. João Furiba eu relembro em outra canção, A DEMÃO, onde cito o nome de pessoas importantes para a minha formação.
Falei sobre isso, pois que, a convite do grupo Contadores de Mentira, compus a trilha sonora do espetáculo O INCRÍVEL HOMEM PELO AVESSO, que revive o massacre de Canudos pela ótica da população de Canudos. Minha emoção em contar essa história e musicá-la foi epifânica, minha alucinações poéticas, meus delírios sertanejos, me fizeram memorar esses mestres todos e suas soberbas construções. Esse meu humilde Cordel Para Conselheiro, não entrou na trilha do espetáculo oficialmente, mas, é cantado nos aquecimentos do grupo e usado como teaser de chamadas em temporadas e apresentações. Posto aqui meu carinho a essa cultura que tanto me deu, para Canudos e seu povo, à João Furiba eterno mestre e aos Contadores de Mentira.
Canudos não se renderá!

CORDEL PARA CONSELHEIRO
(Meyson)

No início era o sinistro
de medonha escuridão
pio de ave agoureira
no pedregoso sertão
a República cobrando
e o Diabo dando a mão


Onça da língua de cobra,
das garra de gavião
des-ilibada vadia,
pastora da Lei do Cão
no madeiro do tributo,
infernal legislação.


Meretriz das costa oca,
anja vil da perdição
sangue-suga do suor
dos pobre do meu rincão
prometendo sem cumprir:
sal, saúde e educação.


Sob o julgo do chicote
anca da população
na cangaia dos impostos,
idolatrado cifrão,
Vaca das tetas imundas
onde mamava o vilão


Era mesmo a danação
aquela submissão
fôrma da corrupção
da alma e da razão
repartindo aquele pão
amassado pelo Cão


Quando tudo era perdido
de insolúvel danação,
em contas de mil rosários
desgastados na oração
e joelhos calejados
pela fé na salvação,


surge o messias surrado,
carcomido do sertão,
trazendo candeia acesa
afastando a escuridão
alumiando os caminhos,
restaurando os corações.


Fora mesmo uma visão,
aquele Dom Sebastião,
a divina encarnação,
dividindo o mesmo pão,
dividindo o mesmo chão
na mais bonita comunhão.


E SALVE CONSELHEIRO.





O INCRÍVEL HOMEM PELO AVESSO \ foto de Alessandro Silva



ANTÔNIO CONSELHEIRO



JOÃO FURIBA
http://www.luizberto.com/vote-espia-so-paulo-carvalho/joao-furiba

http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Jo%C3%A3o+Furiba&ltr=j&id_perso=955

quarta-feira, 23 de maio de 2012

PASSARINHAS

Na Paraíba, em Sumé, minha cidade ancestral. Terra de meus pais e avós, chão que me construiu identidade. Essa canção fala do quintal de Dona Dina, minha vó, carinhosamente chamada de Bobó pelos netos e bisnetos. Nesse quintal se reunia uma mulherada falante e sorridente, entre varal e canteiro cheiroso de erva, fruto e flor, reunião de conversa, comida e vez por outra, cachaça. Essas são as Passarinhas que rodeavam esse menino bobo apaixonado pelo céu descobrindo um amor novo, gigante, por uma estrela que naquele instante entrava em sua vida, Maristela. Obrigado esse povo. Essa música pode ser encontrada nos CDs, AGÔ do Jabuticaqui e BARROCO do projeto Vila de Sant'Anna do meu amigo Mateus Sartori.

PASSARINHAS
(Meyson)


Galhas
do meu cancioneiro
sombreiem o terreiro
é linda a manhã
tem passarinhas por todos os cantos
cantando seus cantos
cunhãs.

Tem fogueira na roda da dança de cacuriá
senhora no fogo da lenha mexendo o fubá
uma outra alimenta a pequena com seio de amor
é bronze o sorriso
frescor

que vem da moringa com gosto de cupuaçu
licor que aromado com mel doce de jataí
que lá da varanda ao balanço de tudo sorri
é Dina eu sei
mainha de mãe

Era eu lá
ei
miudim pra voar
com ôi no varal
já mirando um cordel
meu outro oiá
de namorado do azul
já bem vesgo de oiá
uma estrela no céu despontar






cunhã - mulher adulta, cabocla, termo regional comum nos interiores do Brasil.
cacuriá - dança típica do estado do Maranhão, surgida como parte integrante das festividades do Divino Espírito Santo.
cupuaçu - fruta muito comum na região Norte do Brasil.
jataí - é uma abelha sem ferrão, ou melhor que possuí um ferrão atrofiado, mas um mel delicioso.



terça-feira, 4 de janeiro de 2011

...um início possível...

CAÇUÁ

   Dei o título de "um início possível", porque essa canção está presente na construção do meu imaginário como um divisor de águas. Essa canção foi composta para ser uma dupla homenagem, às minhas lembranças de uma Sumé-PB inesquecida e Juá de Casa Forte, hoje amigo, grande compositor.
   Lembro que a primeira vez que ouvi uma música de Juá foi na voz de Juh Vieira (músico e parceiro de Juá) em companhia de Memeu Cabral (músico e amigo) em um sarau que aconteceu no Shangai, Mogi das Cruzes-SP, eu não conhecia os dois, melhor os três, ainda, e Juh cantou UM BAIÃO PARA O MEU CALUNDU, composição dele e de Juá. Aquela música mexeu com a minha consciência de tal forma e me tocou tão profundamente que considerei o momento epifânico. Precisava conhecer Juá.
   Fui à Liberdade em São Paulo com o endereço que Memeu havia me dado para conhecer o Famigerado, quando ia tocar o interfone me aparece na porta Memeu acompanhado de Juá, nos apresentamos, andamos, bebemos... e essas são outras histórias, para outro blog.

CAÇUÁ
(meyson)

êh, ê gado \ êh, ê saudade
êh, ê gado, êh boi \ êh, ê saudade

o que canta dentro de mim \ são as águas do sucuru
a lenda dos cariris \ um baião pro meu calundu
sertão que eu deixei pra trás \ na delícia do teu cuzcuz
me espere que vou voltar \ demoro mas chego já
e trago no caçuá \ a memória de um tempo bom
com a ponta do meu facão \ risquei no alpendre dois coração


êh, ê gado \ êh, ê saudade
êh, ê gado, êh boi \ êh, ê saudade


cirandam dentro de mim \ lundus a campina em flor
florou um mandacaru \ então não tarda chover no chão
porteiras vão se abrir \ felizes se eu entoar
os versos que eu fiz pra ti \ demoro mas vou voltar
tão pouco pra se feliz \ errei quando eu vim pra cá
saudade me fez chorar \ demoro mas vou voltar


êh, ê gado \ êh, ê saudade
êh, ê gado, êh boi \ êh, ê saudade

que o chicote do rio nas pedras \ beija o limo molha os seixos
leva os grãos deixa em meus beiços \ o frescor de um madrigal
meio que interpreta um temporal \ capim da margem contracanta
no afã da mão que o afronta \ como a podar um canavial

êh, ê gado \ êh, ê saudade
êh, ê gado, êh boi \ êh, ê saudade

.




sucuru - rio da cidade de Sumé-PB
cariris - tribo indígena comum da região do semi-árido nordestino
calundu - mau humor, comum entre casais
caçuá - cesto grande de cipó ou vime para cangalhas, geralmente usado em animais de carga
lundus - canção, música em geral de caráter cômico ou picaresco, dança rural e canção de origem africana, acompanhada de cantos, muito popular no Brasil a partir do séc. XVIII


.
juh

juá

memeu